quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

E se o seu filho já viesse “pronto”?

ADOÇÃO

Adotar crianças de 3 anos de idade ou mais é uma ideia que ainda desperta medos e vem repleta de preconceitos. Aqui, duas famílias contam como é que essa adoção tardia pode, sim, dar certo .

Foi por meio da brincadeira com os irmãos José Vitor e João Pedro que Liriel começou a sentir a chance de uma nova família com os pais Marcelo e Fernanda

A chegada de uma criança está sempre cercada de muitas expectativas. Que personalidade ela terá? Qual palavra aprenderá primeiro? Quando dará os primeiros passos? Junto com a alegria de ter um bebê em casa, vem a responsabilidade de cuidar e de decidir por alguém ainda indefeso e dependente. E se o seu filho já chegasse sabendo andar, falar e comer por conta própria? Dizendo do que gosta e do que não gosta?

O casal Fernanda e Marcelo havia vivido essas experiências com os filhos, João Pedro, 13 anos, e José Vitor, 11. Com a mais nova, Fernanda não experimentou a gestação, não deu mamadeira nem trocou fraldas. Liriel foi adotada quando tinha 5 anos e as primeiras palavras e passos ela deu num abrigo no interior de São Paulo. Mas os pais não se incomodam. Eles apostam no futuro que passarão com a menina.

A adoção tardia, que é a maneira como se chama quando acontece com crianças mais velhas, foi uma escolha refletida de Fernanda e Marcelo. Eles já imaginavam a interação com os outros filhos, por exemplo. Quem vê Liriel correndo pela casa, brincando de pingue-pongue na garagem com os irmãos, levando bronca por andar descalça ou roubando a atenção do pai durante a entrevista, não imagina que ela entrou para aquela família há pouco tempo. “Ela se encaixou muito bem. O perfil não podia ser mais parecido com o nosso! Desde físico até comportamental”, conta a mãe. Entre as coincidências, todos têm o mesmo tipo sanguíneo: todos na casa são O positivo. Quando Liriel passou a entender isso como um laço forte entre eles, vivia perguntando: “Qual o nome do meu sangue mesmo?”, como se fosse um símbolo da conexão entre eles.

O casal Margaret e José Paulo não puderam fazer essa comparação. Quando decidiram adotar, não tinham filhos. Mas desde sempre acreditaram na chance de iniciar uma relação com a conversa, com o convívio, e foi com 6 anos que Gabriela chegou à casa deles. Foram pais de primeira viagem de uma menina cheia de histórias, assim como eles. Hoje, ela tem 12 anos e, para Margaret, o fato de nunca ter experimentado a maternidade biológica não é um drama. “Quando ela chegou, trouxe um grande aprendizado para a família. Foi e é muito especial.” Além disso, ambos os casais contam que não estavam preparados para cuidar de um bebê naquele momento e, por isso, a adoção de uma criança mais velha foi sempre a primeira opção

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Margaret e José Paulo foram pais de primeira viagem com uma filha de 6 anos: Gabriela hoje tem 12 anos e aproveita ao máximo a chance com a segunda família .

Decisões como as dessas duas famílias acontecem pouco no Brasil. Dos 26.149 pais em potencial na fila do Cadastro Nacional de Adoção, apenas 21% aceitam crianças entre 4 e 7 anos de idade e apenas 1,83% querem as de 8 a 11 anos.

Crianças, digamos, mais “velhas” estão mais sujeitas ainda a um outro tipo de situação, também triste: a possibilidade de devolução. Em junho do ano passado, uma juíza de Uberlândia, em Minas Gerais, deu uma sentença inédita no Brasil contra um casal que resolveu adotar uma menina de 8 anos: eles foram condenados a pagar pensão alimentícia até que a criança complete 24 anos por ela ter sido devolvida ao abrigo depois de oito meses de convivência, às vésperas de conseguirem a guarda definitiva. Quem conhece o dia a dia de um abrigo sabe que a devolução – que caracteriza, então, um segundo abandono – acontece com frequência. Existe aquele medo de não conseguir “dar jeito” na criança e de, no futuro, ser “vítima” da própria “boa ação”.

Desafios antes e depois

Fernanda conta que estranhava a hesitação de Liriel no início, ainda no abrigo. “Eu acreditava que ela pensaria: ‘Oh, alguém veio me salvar’, e seria eternamente grata.” Ela e o marido persistiram e durante duas semanas visitaram a menina todos os dias. “Era como se dissesse: ‘Vamos ver se ela gosta de mim do jeito que eu sou – boazinha, bravinha, bonita, feia, fazendo molecagem ou não...’.” Num domingo de Dia dos Pais de 2008, o casal conseguiu autorização para levar Liriel ao almoço da família e ela topou. Chegou assustada, mas logo se envolveu nas brincadeiras dos (futuros) irmãos e não quis mais ir embora. Começou ali uma nova página da história dela, mas que só foi oficializada no fim do ano seguinte. A destituição do poder familiar (dos pais biológicos) é um processo que costuma demorar. No caso de Liriel, levou cinco anos até que ela estivesse legalmente disponível para adoção. A nova Lei Nacional da Adoção promete agilizar esse processo para até dois anos.

A tensão para definir a questão legal vinha junto com os desafios dos primeiros dias. A criança mais velha chega, claro, cheia de lembranças e as de Liriel tinham a ver com a segurança que ela sentia no abrigo, onde morou desde 1 ano de idade. No começo, quando contrariada na vontade de ficar acordada até tarde, a menina dizia querer voltar para a antiga moradia, em tom de ameaça. “Era um teste mesmo. Mas eu sabia que não podia me ofender”, diz Fernanda. Com o passar dos meses, a menina foi deixando de falar tanto no abrigo e passou a se envolver cada vez mais com o cotidiano da nova família. Levou um tempo também para Fernanda ouvir a filha chamá-la de “mãe”. Ela só dizia “tio” e “tia” para os pais, mas a convivência com os irmãos, que sempre procuraram atraí-la para suas brincadeiras, ajudou a mudar isso. Fernanda não sabe dizer exatamente quando foi a primeira vez. “Hoje sinto como algo tão natural. Acho que simplesmente aconteceu.”

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