Preconceito dos outros
O desafio do primeiro mês de Margaret e José Paulo também estava em torno da dificuldade de impor regras a Gabriela. “Ela queria ver TV o tempo todo, brincar o tempo todo. Queria ficar com todos os pacotes de bolacha na mão.” Os pais tiveram que aprender a encontrar um equilíbrio e ensiná-la. “Com o tempo, fui criando o limite.”
Antes de tudo, o casal precisou vencer outro problema: o preconceito. Foi necessária muita conversa com a família toda, que questionou demais a decisão. Em pouco tempo a felicidade do casal e os encantos da menina cativaram a todos, que talvez tenham entendido que ali nascia também uma família.
A criança mais velha chega com muitas lembranças do lugar em que morava. O segredo é ter paciência até que ela crie novos vínculos
Expectativas e limiites .
Especialista em casos de adoção, o psicólogo pernambucano Luiz Schettini Filho já publicou seis livros sobre o assunto – o último deles, Pedagogia da Adoção – Criando e Educando Filhos Adotivos (Ed. Vozes), foi lançado em novembro passado. É pai adotivo de dois filhos de 30 anos e de um com 10.
CRESCER: É possível “moldar” a criança à nova família?
Luiz Schettini: Sim, é possível. Porém, os pais não devem esperar uma modificação que atenda a todas às suas expectativas. Com certeza acontecerão atritos, problemas com limites... Os pais devem explicar, dar bronca, impor os limites. Mas devem também ter consciência de que é um processo. Algumas coisas do passado podem, sim, permanecer, mas os modelos da família substituta também têm interferência na formação da criança.
C.: E quando os pais já têm filhos biológicos?
L.S.: Nesse caso, é preciso tratar com eles também a questão da adoção. A criança tem que ser adotada pela família toda, inclusive pelos parentes, não só pelos pais. A convivência vai dar condições para a integração entre os filhos. Mas é preciso tomar cuidado, para que os pais não coloquem os filhos biológicos de lado por causa do filho adotivo.
C.: E como conquistar uma criança mais velha?
L.S.: O que funciona é a existência de um real amor, que a criança perceberá. Ela se sentirá acolhida, inserida na família. Mesmo na hora de impor regras e limites, os pais não devem ter medo de que isso “afaste” a criança. As normas podem ser estabelecidas sem usar de rigidez. Basta clareza, firmeza com ternura. Sem afrouxar nem ser rígido demais na educação da criança. Esse cuidado também dá segurança para o filho. Tudo o que é desmedido é ruim, seja o prazer ou o sofrimento
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