quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

FAMÍLIA

ADOÇÃO

No Brasil, o processo está mais transparente, mas ainda há muito a se fazer para facilitar a adoção. Confira o bate-papo da CRESCER com duas especialistas no assunto .

Bruna Menegueço

 Shutterstock

Uma das conquistas das famílias formadas por adoção é ter um dia só delas para comemorar. A data – 25 de maio - foi instituída por meio de uma lei federal em 2002, com o objetivo de promover mais reflexão sobre o assunto. “Depois disso, muita coisa mudou e o tema está sendo desmistificado, os trâmites jurídicos estão mais ágeis, principalmente quando os adotantes têm exigências menores em relação ao perfil da criança que desejam como filho”, diz a psicóloga Lidia Weber, pós-doutora em Desenvolvimento Familiar, com 12 livros publicados, entre eles Adote com carinho: um manual de aspectos essenciais da adoção (Ed. Juruá), lançado este mês.
Em 2008, houve a criação do
Cadastro Nacional de Adoção (CNA), que concentra as crianças que podem ser adotadas e os adotantes em todo o país. Apesar de facilitar o encontro de ambos, ele ainda não funciona como deveria, mas já traz bons resultados. “Com ele, tenho percebido uma procura maior por crianças maiores de 2 anos - as chamadas adoções tardias - e irmãos. As pessoas candidatas a adotar estão mais dispostas a mantê-los juntos e a Justiça, mais empenhada em favorecer esse vínculo”, explica a psicóloga Lídia Levy, supervisora da equipe de psicologia da PUC-Rio, que atua em diferentes varas do Rio de Janeiro.
O desafio é atualizar essa base de dados frequentemente. “Ninguém sabe quantas crianças de fato existem nos abrigos do Brasil - estima-se que sejam cerca de 80 mil -, mas o cadastro tem menos de 5 mil crianças e 20 mil pretendentes à adoção. Onde estão as outras crianças? Estão em processo de destituição do poder familiar, não tem estudo de caso ainda, estão em comarcas que sequer têm computadores interligados com o Cadastro Nacional de Adoção”, diz Lídia Weber.
Para adotar uma criança, é necessário sentir um desejo profundo de ter filhos. “Não se pode confundir com a vontade de ajudar uma criança ou suprir uma carência da vida. Não é esse sentimento que você deve ter, é amor de mãe ou pai. Confundir o real motivo para adotar é como engravidar para salvar o casamento e depois se separar, ou seja, aquela criança nasceu para consertar outra coisa", diz Levy. E ela compara a situação como quando se tem um filho biológico. Ou seja, quando você segurou seu filho no colo, não o amava do mesmo jeito que o ama hoje. Afinal, o amor é construído a cada dia, assim como a maternidade também.
Se você tem esse desejo, o primeiro passo é comparecer a um Juizado da Infância e da Juventude mais próximo. Lá, será feito um estudo do adotante que receberá um certificado de Habilitação e, então, entrará no cadastro (fila) para realizar uma adoção.

Os principais desafios de quem deseja adotar

- Preparar-se com antecedência: buscar informações e preparação psicológica sobre o processo e a dinâmica familiar que envolve a adoção;
- Revelação precoce da adoção para o filho, ou seja, falar sempre e desde sempre;
- Conversar sobre adoção e sobre sua história com o filho em diferentes momentos do seu desenvolvimento;
- Respeitar a criança e ajudá-la se ele quiser mais detalhes sobre a sua família de origem;
- Preparar cuidadosamente toda a família (tios, avós e amigos próximos) sobre a adoção para que não seja surpresa e, assim, diminuir o risco de discriminação;
- Falar do tema com tranquilidade e sentir-se confortável diante de estranhos e amigos. Não é preciso falar sobre o assunto o tempo todo; lembre que segredo sobre a situação não é bom, mas privacidade é essencial.
Fonte: Livro Adote com Carinho (Editora Juruá)

 

Adoção tardia: desafios e muito amor

Especialista em casos de crianças que são adotadas mais velhas, a psicóloga diz aqui os principais tópicos para serem levados em conta nesse tipo de situação .

Aline Moraes

Arquivo Pessoal

A psicóloga Marlizete Maldonado Vargas, professora da Universidade Tiradentes, em Alagoas, não tem filhos adotivos, mas acompanha de perto, desde a década de 90, a situação de crianças em abrigos. É autora de Adoção tardia - da família sonhada à família possível e, nesse ano [2010], publicará um novo livro, sobre a experiência de acompanhar, durante 16 anos, quatro jovens que viviam em abrigos. "Hoje, a maioria está integrada e nem lembra que foi adotada aos três ou quatro anos de idade. São filhos. Ponto". Marlizete falou à CRESCER sobre o processo de adoção tardia.


CRESCER: Como a família pode se preparar para uma adoção tardia?
 
Marlizete Vargas: Informando-se através de sites, participando de grupos de discussão em vários blogs que possibilitam a troca de experiências. Mas, antes das informações, o mais importante é a disponibilidade para estar com a criança e possibilitar a troca afetiva, para uma relação profunda, verdadeira e amorosa.


C:
Como conquistar o amor de uma criança que já passou por outra família ou pelo abrigo?
MV: A confiança da criança de que não será abandonada ou machucada a novamente parece ser o ponto crucial para o processo de vinculação. Ela necessita de segurança e suporte para perceber que não está só no mundo. Essa segurança é passada através do amor incondicional, dos limites, do estímulo para que a criança expresse o que está sentindo e da ajuda para que ela compreenda as primeiras fases do processo de adaptação à nova família.


C: E a questão do passado da criança, como lidar com ela?
MV: Como parte importante da vida da criança, que deve ser preservada enquanto história que todos temos. Não use o "passado" de abandono, de institucionalização do filho adotivo para justificar problemas no presente, mas como informações importantes que embasem melhores estratégias para mudar seu futuro.


C: Quais desafios os pais devem esperar quando o filho adotivo chega à adolescência?
MV: A adolescência pode representar, sim, uma fase de turbulências, de questionamentos, de vir à tona vivências infantis e, junto com elas, as histórias que continuaram confusas, obscuras. No resgate da história do adolescente adotivo, existem as perdas das figuras familiares anteriores, a angústia ante o desconhecido que se perdeu lá atrás, a necessidade de falar sobre suas origens - "conhecer quem eu sou para saber para onde vou". Mas isso apenas se intensifica na adolescência. Minha experiência tem demonstrado que o pior inimigo do jovem em conflito na família é o silêncio, o não poder falar de algo que todos sabem mas fazem de conta que é segredo - os tabus familiares, e a adoção costumava se um desses tabus.


C: Onde a família pode encontrar grupos de apoio à adoção no Brasil? MV: No portal da ANGAAD, Associação Nacional dos Grupos de apoio à adoção (
www.angaad.org.br), encontram-se cadastrados 56 grupos de apoio à adoção espalhados pelo país, a maioria com páginas de conteúdo informativo, de notícias e eventos, ou com uma série de endereços para contatos com os membros dos grupos.

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