Dois de uma vez
David e Júlia deixaram os pais com a língua de fora: chegaram juntos
Ter filhos é o caminho natural da espécie humana, mas dois em cada dez casais brasileiros não conseguem, segundo dados do Centro de Medicina Reprodutiva Huntington, de São Paulo. São 8 milhões de casais inférteis por várias razões. Com os avanços da ciência, praticamente todos poderiam realizar esse sonho. Só que muitos não agüentam o custo financeiro e emocional dessa empreitada, o que os leva à adoção. Como Egle Amato e o marido, Fábio Mantegari, pais adotivos de Júlia, 4 anos, e David, 5. Na verdade, ela nem chegou a buscar tratamento. Amigas que passaram por essa experiência contavam que se sentiam massacradas com a expectativa de engravidar e a frustração com o insucesso das tentativas. 'Não quis passar por isso', conta Egle. Quando se casou com Fábio, começaram a discutir a possibilidade de adotar. A dúvida maior não era quanto à adoção em si, mas em relação à responsabilidade de ser pais, de estarem preparados para a reviravolta que isso traria à vida do casal. O destino testou a consciência cuidadosa dessa paternidade: um ano e oito meses depois de tomada a decisão, Egle e Fábio tinham em casa uma revolução em dose dupla: dois filhos de uma só vez. 'Entramos numa fila para adoção em uma instituição no interior de São Paulo. A esperança de que conseguiríamos logo é que pedimos uma criança com até 2 anos, e a maioria quer um bebê novinho', conta Fábio. Doze meses de espera e nada. Até que o casal recebeu o telefonema de uma amiga que trabalhava com grupos de adoção e os convidou para ir a Curitiba conhecer um menino. 'Era o David, tinha 1 ano e 4 meses. Passamos o dia com ele e foi mágico. Ele dormiu em meu colo, me encantei', lembra Egle. Por quatro meses, o casal visitou David a cada 15 dias, aguardando a documentação legal para adotá-lo. Já tinham esquecido a fila no interior de São Paulo. Prepararam um belo quarto de menino com desenhos de carrinho. Encaixotaram as roupas de bebê que a famíllia havia dado e não serviriam em David. 'Aí, a assistente social da instituição do interior ligou. Estava com uma menina de três dias no colo, já poderíamos ter a guarda provisória dela, precisávamos buscá-la naquele mesmo dia e tínhamos meia hora para decidir', conta Fábio, que ligou correndo para a mulher no trabalho: 'É um bebê, Fábio, que quer um pai e uma mãe. Quem não quer um bebê?', respondeu Egle. E foram buscar Júlia - nome escolhido no caminho -, sem perguntar se era japonesinha, branca ou negra. 'Recebemos nos braços um charutinho todo enrolado, de 2 quilos e 200 gramas. Trinta e cinco dias depois, quando David veio, ela estava uma bolinha', lembra a mãe. O casal provou da imensa generosidade que a vida de pais exige: David chegou quando as cólicas de Júlia começavam. E descobrira há dois meses a maravilha dos primeiros passos. Corria pela casa sem parar. As visitas, que diminuíam para Júlia, voltaram para ver David. 'Não foi muito calmo, não é Fábio?', diz Egle.
Dama da noite
Filhos, filhos... Adotivos ou não, eles dão problema. 'E problema se resolve', dizia Flávio a todas as dúvidas da mulher, Laís, quando decidiram ter o terceiro filho. Os outros dois já estavam grandinhos, com 10 e 8 anos. 'Deu saudade de ter um bebê, mas eu era dessas grávidas que ficavam aflitas até o parto, preocupada se tudo iria dar certo. Estava com 30 anos, e esse estresse de novo, pensamos, não ia dar certo', conta Laís. Flávio sugeriu adotar uma criança. Em Laís surgiu o temor de que não conseguisse amar o bebê. 'É uma criança, como não vai amar?', rebatia o marido. Quando ela decidiu e comunicou animada, Flávio anunciou: 'Então vamos, mas tem de ser uma criança negra. Vamos adotar quem mais precisa.' A última palavra foi de Laís: 'Então quero uma menina de cabelos bem encaracolados, para usar vestidos e lacinhos.' Quase um ano depois, uma sexta-feira de março de 1980, Flávio, Laís e os dois filhos davam banho em Flávia, recém-chegada do Amparo Maternal, instituição que acolhe bebês com até 1 mês de idade, antes de encaminhá-los para outros abrigos. 'Ela saiu linda do banho, de macacão branco e fita no cabelo. Tínhamos o aniversário de um parente e ninguém sabia da Flávia. Entramos e a festa parou. Um amigo da família, que era um avô adotivo para nós, chorou. Não podia ter filhos. Ficou maluco pela Flávia ', lembra Laís, com carinho.
Flávia tem 22 anos e é Barros Pinto como Luciana, a filha adotiva que encantou o pai num churrasco. Os pais são irmãos e as meninas, primas e melhores amigas. A adoção de uma não motivou a da outra. 'Mas ajudou na educação de Luciana', recorda Raul, que aproveitava as orientações que a cunhada Laís buscava com uma psicóloga, quando se via em dificuldade com a filha Flávia. 'Os problemas que se resolvem, como diz meu marido, foram inevitáveis. Há muito preconceito. Nem numa viagem aos Estados Unidos, em que a população negra se impõe mais pela melhor condição social, Flávia se sentiu à vontade. Era uma negra numa família de brancos, situação incomum lá também. Mas uma história compensa todas que enfrentamos até hoje. Flávia já era maiorzinha. Andávamos na rua e uma senhora negra nos abordou: 'Nossa, que coisa mais linda', ela disse para Flávia. E depois olhou para mim: 'Já sei, ela nasceu de noite'. E sorrimos uma para a outra.'
Ser filha adotiva é...
Flávia, 22 anos, estudante de direito: "O coração da minha mãe ficou enorme antes de eu chegar"
Sou filha adotiva de uma família de brancos, com dois irmãos mais velhos do que eu. Fui adotada com vinte dias. Minha mãe biológica me abandonou em um orfanato e, provavelmente, torceu para que eu ganhasse uma família que me quisesse e que pudesse me amar muito. A idéia da adoção foi do meu pai, quando minha mãe disse a ele que queria ter outro filho. Ele queria adotar uma criança negra. Assim, desde o momento que coloquei os pés em casa, fui recebida e amada como uma filha e nunca houve nenhuma diferença entre mim e os meus irmãos.
Sempre ouvi minha mãe dizer que eu vim do coração. Passava horas imaginando como foi que os seios dela cresceram... Ela dizia que, assim como a barriga das grávidas, o coração dela ficou enorme antes de eu chegar...
Os anos foram passando e eu tentando entender como tudo isso tinha ocorrido, como eu tinha vindo parar aqui... Quando era pequena, a vida foi um pouco difícil, pois tinha de lidar com três coisas complicadas: primeiro como negra, segundo como negra em uma família de brancos e, por último, como filha adotiva.
Como negra, filha de uma família de classe média alta, tive muitos problemas nas escolas, cuja maioria era mais do que branca. Mas sempre achei que meus pais estavam preparados para enfrentá-los, mesmo não sendo negros. Como negra em uma família de brancos, em todos os lugares que íamos sempre chocávamos as pessoas. Ninguém entendia o que estava ocorrendo, até eu chamar minha mãe de mamãe. Mesmo assim as pessoas se espantavam. Até hoje, vejo o olhar perplexo das pessoas em nossa direção. Também foi um pouco complicado falar aos meus amigos que era filha adotiva. A cada dia que passa aprendo a contar logo de cara, para evitar surpresas.
Nem tudo foi sempre um mar de rosas. Tive de arrumar muitos 'bloquinhos' dentro da minha cabeça. Essa expressão - 'bloquinhos'- era usada por minha mãe, que sentia que as histórias dentro de mim ainda não estavam bem resolvidas. Eu era muito nova para entender coisas tão sérias e complicadas! Muitas perguntas surgiam e nenhuma das respostas me deixava satisfeita.
Meus pais sempre lutaram para que tudo fosse esclarecido, mas como explicar a uma criança que quem a colocou no mundo não a quis? Hoje penso que não é qualquer pessoa que pode adotar uma criança. Tem de pensar muito e estar pronta para os problemas que vão ocorrer. Além de muito amor, tem de haver paciência para esperar que um dia os 'bloquinhos' dessa criança estejam todos no lugar certo. Tenho certeza de que os meus pais sentem - e sabem - que os meus 'bloquinhos' já estão quase no lugar. Sabem que o que sinto por eles é amor de filha. E eu sei que o que eles sentem por mim é amor de pais verdadeiros.
Ser Mãe é assumir de Deus o dom da criação, da doação e do amor incondicional. Ser mãe é encarnar a divindade na Terra.
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